Hoje, r/france expôs três linhas de fratura que se tocam: o capital que se esconde atrás de balanços criativos, a Europa que normaliza o estado de exceção em nome da urgência, e a guerra cultural que já não finge ser debate, mas encenação. O fio comum? Instituições capturadas, regras flexionadas e uma opinião pública que reage com uma lucidez desconfortável.
Capital em roda livre: do leite aos carris
Quando a fronteira entre otimização e fraude se esbate, o resultado é previsível: trabalhadores a descoberto. A onda de indignação em torno da denúncia de que a Lactalis ocultou lucros e reteve a participação dos trabalhadores não é apenas um caso empresarial; é o espelho de um modelo que privatiza ganhos e socializa custos.
"Como assim? Introduzir novos atores cujo único e exclusivo objetivo é extrair lucro poderia causar problemas?" - u/Fun-Criticism2017 (168 points)
Nos carris, o mesmo manual: a promessa de concorrência resvala para fragmentação e captura de rotas rentáveis. A discussão acendeu-se com um relatório que desmonta os supostos benefícios da concorrência no sistema ferroviário francês, sugerindo que as linhas deficitárias ficam órfãs enquanto o lucro pauta a malha do serviço público. A lógica é coerente, e é precisamente isso que inquieta.
Europa em regime de exceção
Em Estrasburgo, a exceção vai-se instalando como norma sob a bandeira da indústria de defesa: ganhou tração o confronto de Marc Botenga a Raphaël Glucksmann sobre uma diretiva que permitiria 48 horas semanais na indústria militar, teste de esforço a direitos laborais conquistados a duro custo.
"A sala está quase vazia e ‘Gluglu’ conseguiu, mesmo assim, estar lá para ser repreendido..." - u/Daedelus74 (230 points)
Do lado ambiental, a agenda desliza no mesmo sentido: a manobra parlamentar para desmantelar a lei europeia contra a desflorestação adia ambições e abre brechas, enquanto, em Paris, a resolução aprovada na Assembleia Nacional contra o acordo UE‑Mercosul mostra um raro reflexo de equilíbrio interno. Dois parlamentos, três mensagens: urgência para uns, prudência para outros, desgaste para todos.
Guerra cultural total e o choque com o real
O palco da guerra cultural já não é subterrâneo; tem holofotes e bilheteira. A coreografia ficou à vista com o comício dos órgãos de Bolloré no Dôme de Paris a afinar uma “guerra de civilizações”, ao mesmo tempo que vieram a público as revelações de um ex‑jornalista sobre directivas internas do canal para fazer “muslim, muslim, muslim”. Não é só audiência; é engenharia de agenda.
"Pessoalmente, ainda não acredito que, num país como o nosso, este canal ultrarracista não tenha sido encerrado há muito." - u/AttilaLeChinchilla (510 points)
A dissonância alastra: na política externa comprimida em slogans, sobressai a declaração de um deputado da LFI de que Taiwan é chinesa; no sector cultural, esgota-se a paciência com o travão imposto pelo próprio organizador ao Festival de Angoulême; e, lá fora, o mundo lembra a escala do que importa com o incêndio no complexo Wang Fuk Court, em Hong Kong, com dezenas de mortos e centenas de desaparecidos. A espuma do dia grita identidade; a realidade cobra responsabilidade.