Mais de 80% das empresas não registam ganhos com IA

A pressão regulatória e a escassez de memória expõem riscos de segurança e custo

Camila Pires

O essencial

  • Mais de 80% das empresas não observam ganhos de produtividade com IA, segundo inquérito a mais de 6 mil executivos
  • Centros de dados absorvem a maior parte da memória produzida, o que encarece dispositivos por vários anos
  • Serviços digitais passam a exigir início de sessão para funcionalidades-chave após uma exposição maciça de números de Segurança Social

O dia trouxe uma linha clara: a tecnologia está a ser reencenada no palco da responsabilidade. Entre tribunais que apertam regras, plataformas que restringem acesso e alertas sobre dados expostos, a conversa convergiu para confiança e poder. Em paralelo, a inflação de expectativas sobre inteligência artificial colidiu com realidades de produtividade e de hardware.

Governança e confiança: quem define os limites

A autoridade pública voltou a marcar o ritmo: a advertência judicial sobre óculos inteligentes durante o depoimento de Zuckerberg simboliza a pressão por regras claras num ecossistema de gadgets cada vez mais invasivo, enquanto a mudança que levou a Tesla a abandonar o rótulo de “piloto automático” expõe o custo de excessos de marketing em segurança rodoviária. Juntas, sinalizam um reposicionamento: o que é possível tecnicamente volta a ser calibrado pelo que é aceitável social e legalmente.

"Quando estás em tribunal porque o teu produto é acusado de agravar pensamentos suicidas, que raio te levaria a levar um dispositivo que funciona como acessório desse mesmo produto? É como ir a tribunal com as luvas ensanguentadas quando és acusado de homicídio." - u/NotACertainLalaFell (1663 points)

Esta reconfiguração aparece também no quotidiano digital: a limitação de funcionalidades a quem não inicia sessão num serviço de mapas revela a troca permanente entre conveniência e controlo de dados, agravada por uma exposição maciça de números de Segurança Social que amplia o risco de roubo de identidade. Não surpreende, portanto, que uma denúncia sobre a dependência nas redes sociais alegadamente ignorada durante anos volte a colocar as grandes tecnológicas sob escrutínio moral e regulatório.

IA entre o hype e a realidade: produtividade, cultura e decisões apressadas

No terreno da inteligência artificial, os números contestaram a narrativa triunfalista: um inquérito a mais de 6 mil executivos indica que mais de 80% das empresas ainda não detetaram ganhos de produtividade, ao mesmo tempo que veio à tona que um processo de subvenções associado a entusiastas de criptomoedas foi reduzido a perguntar a um chatbot se um projeto tratava de diversidade, equidade e inclusão. Entre adoções superficiais e medição deficiente de impacto, a fadiga do hype já se traduz em ceticismo operacional.

"Dá mesmo cabo da paciência quando vejo uma mensagem do vice-presidente ou do diretor de tecnologia que é claramente gerada por IA. Tira-me a vontade de ler: ‘não puseste esforço, porque hei de pôr eu?’" - u/BorrisBorris (760 points)

O ceticismo cultural ganhou palco quando uma grande cadeia de cinemas recusou exibir uma curta-metragem produzida por IA, apesar da vitória num concurso. É um lembrete de que a legitimidade de novas ferramentas não se conquista apenas com capacidade técnica, mas com práticas transparentes, critérios estéticos e respeito pelos públicos e pelos profissionais.

"Passo 1: treinar IA no caos da internet; Passo 2: usá-la para decidir financiamento nacional; Passo 3: fingir surpresa quando a realidade vira um meme..." - u/SalvoSoftware (510 points)

Matéria-prima da era digital: a conta de hardware da corrida à IA

Se a produtividade tarda a aparecer, a fatura do hardware chegou primeiro: análises detalharam uma escassez de memória que promete encarecer telemóveis, portáteis e consolas por vários anos, à boleia de centros de dados que consomem a maior fatia da oferta global. O risco deixa de ser abstrato e torna-se tangível no preço final, nas especificações cortadas e nas janelas de lançamento adiadas.

"Tanto dano causado por tralha de IA." - u/MentalDisintegrat1on (1294 points)

Do lado das fábricas, a mensagem foi direta: um líder do setor admitiu que o aperto na RAM pode eliminar produtos e até empresas, com um mercado concentrado a privilegiar margens em vez de aumentar produção. O resultado previsível é uma economia da reparação, onde marcas e consumidores protelam upgrades e reparam mais, até que oferta e procura voltem a encontrar um equilíbrio viável.

Os dados revelam padrões em todas as comunidades. - Dra. Camila Pires

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Fontes