A mortalidade excedente pós‑pandemia mantém‑se elevada e persistente

As novas evidências ligam ambiente, instituições e tecnologia a riscos sistémicos interligados.

Letícia Monteiro do Vale

O essencial

  • Quase metade da população mundial poderá enfrentar calor extremo até 2050 se o aquecimento ultrapassar 2,0 °C, com deslocamentos e infraestrutura sob pressão.
  • O excesso de mortalidade mantém‑se significativamente acima da tendência pré‑pandemia anos após o pico da covid, contrariando a tese do mero adiantamento de óbitos.
  • Leis de sinalização de risco que restringem o acesso a armas em crises agudas estão associadas a reduções mensuráveis de mortes a curto prazo.

Hoje, r/science revela três frentes que se cruzam sem pedir licença: o corpo e a mente sob pressão, a memória das pandemias que teima em não terminar e a governança num planeta aquecido por graus e por algoritmos. O consenso fácil vacila quando os dados mostram como o ambiente, as instituições e a tecnologia moldam aquilo que julgávamos ser só biologia.

Corpo, mente e o ambiente que os corrói (ou repara)

Quando a escola recompensa laços sociais, as meninas parecem prosperar: a investigação norueguesa sobre bem‑estar escolar aponta para diferenças de dopamina entre relações e comportamentos autocentrados, abrindo debate sobre como o contexto amplifica a biologia, como se vê em um estudo com crianças do primeiro ao quarto ano. Essa mesma cultura de sala e palco torna‑se gritante noutra arena: os dados de milhares de seminários de economia mostram mais interrupções — inclusive cortando frases — a mulheres, e o efeito cumulativo de ambientes hostis emerge fisicamente, com a evidência de perda óssea progressiva por estresse crónico.

"Acho que as mulheres sabem isto universalmente, pela sua experiência vivida, mas há sempre resistência quando se ousa apontar; é reconfortante saber que os dados corroboram. Se as pessoas acreditarão, mesmo perante os dados, é incerto. Se isto mudará algo, dado o clima político atual, parece cada vez menos provável." - u/FlamingDragonfruit (210 points)

Se o ambiente pode adoecer, também pode cuidar. No laboratório, a plasticidade funcional prolongada após uma dose única em ratos desafia o foco exclusivo em estrutura, como demonstra a pesquisa sobre efeitos antidepressivos duradouros da psilocibina. Fora do laboratório, a política pública atua como antídoto imediato: medidas para restringir o acesso a armas em crise aguda associam‑se a menos mortes, uma realidade quantificada nos resultados sobre leis de sinalização de risco.

Doença, interações biológicas e a memória longa das pandemias

A biologia gosta de paradoxos: o enigma da menor incidência de Alzheimer em doentes oncológicos ganha mecanismo plausível quando tumores secretam uma proteína que atravessa a barreira hematoencefálica e desfaz placas, como discutido na análise sobre cistatina C e comorbidades inversas. A história confirma que a catástrofe assume formas tangíveis: a verificação de uma sepultura em massa da Peste de Justiniano expõe mobilidade, densidade urbana e um evento súbito, contrariando negacionismos cómodos.

"Talvez devessem tentar correlacionar os excessos de mortalidade com a ascensão do autoritarismo. Provavelmente encontrariam algo aí." - u/grathontolarsdatarod (30 points)

Projeções frias substituem mitos reconfortantes: a ideia de que a covid só antecipou inevitáveis cai perante uma subida sustentada de excessos de mortalidade anos após o pico. O fio condutor? Mobilidade, vulnerabilidade e sistemas que amplificam danos — dos micróbios às instituições.

Clima e tecnopoder: governar sob calor extremo e algoritmos

As contas já não pedem interpretações benevolentes: quase metade do planeta poderá enfrentar calor extremo até 2050 se superarmos 2,0 °C, com deslocamentos e infraestrutura sob stress a partir das mudanças mais rápidas no início da trajetória, como detalha a modelação de graus de aquecimento e arrefecimento. A pergunta não é se, mas como e por quem será gerida a transição — água, terras aráveis, fronteiras — quando a termodinâmica virar política pura.

"Grande parte da disfunção global que vemos hoje antecipa precisamente isto. Onde serão bem‑vindos os refugiados climáticos? Quem controla água potável? Onde estão as terras aráveis atuais e onde estarão em 25‑50 anos?" - u/DocCEN007 (299 points)

Ao mesmo tempo, cresce a crítica à arquitetura digital que normaliza controlo e despolitização: a proposta de um enquadramento de “tecnofascismo” acusa mecanismos de extração e governação algorítmica de convergir com autoritarismos em ascensão. Quando o contrato social se resume a um clique acrítico, a governança deixa de ser debate e torna‑se automatismo com desconto.

"Não tivemos um grande manifesto nem uma revolução dramática. Limitámo‑nos a carregar em “Concordo” num termo de serviço de 40 páginas e entregámos as chaves do reino por 5% de desconto numa subscrição." - u/DegTrader (61 points)

O jornalismo crítico desafia todas as narrativas. - Letícia Monteiro do Vale

Artigos relacionados

Fontes

TítuloUsuário
Girls are happier than boys at school, new research shows. Understanding why may all boil down to biology. Girls get more of the happy hormone dopamine through social relationships, including with their friends and classmates. Boys get their dopamine through more self-involved behavior.
31/01/2026
u/mvea
6,828 pts
New study explains why cancer patients rarely get Alzheimers: Tumors secrete a protein (Cystatin C) that crosses the blood-brain barrier and dissolves amyloid plaques.
31/01/2026
u/NoParsleyForYou
2,795 pts
Researchers argue that current mechanisms of control in AI and Big Tech bear striking resemblances to historical fascism. The authors propose the term "technofascism" to describe how digital governance is intersecting with rising Western authoritarianism.
31/01/2026
u/Tracheid
2,606 pts
Nearly half of the worlds populationabout 3.79 billion peopleis projected to face extreme heat by 2050 if global warming reaches 2.0 C above pre-industrial levels, a scenario climate scientists see as increasingly likely as the world surpasses the 1.5 C Paris Agreement threshold.
31/01/2026
u/Sciantifa
1,511 pts
Long-term antidepressant effects of psilocybin linked to functional brain changes - a single dose of psilocybin altered the electrical properties of brain cells in rats for months, even after physical changes to the neurons had disappeared.
31/01/2026
u/mvea
1,140 pts
Data across thousands of economics seminars, job market talks, and conference presentations show that women are interrupted more than men (even when controlling for relevant characteristics). Negative interruptions and interruptions that cut off the presenter mid-sentence are higher for women.
31/01/2026
u/smurfyjenkins
639 pts
Research has verified the first Mediterranean mass grave of the worlds earliest recorded pandemic, providing stark new details about the plague of Justinian that killed millions of people in the Byzantine empire between the sixth and eighth centuries.
31/01/2026
u/Wagamaga
594 pts
COVID-19 did not simply bring forward inevitable deaths as an analysis of mortality data from 34 high-income countries shows a sustained rise in excess deaths years after the pandemic, challenging the mortality displacement hypothesis.
01/02/2026
u/Sciantifa
490 pts
Chronic stress causes progressive bone loss through sustained glucocorticoid (cortisol) receptor signaling. Effects worsen with prolonged exposure and show limited recovery.
31/01/2026
u/sometimeshiny
335 pts
Laws limiting firearm access for people in acute distress are linked to fewer suicides. Red flag laws reduced firearm suicides by 3.79 per 100,000, preventing an estimated 675 deaths across four states in the year following adoption.
31/01/2026
u/Sciantifa
277 pts